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Hopes and Fears

KUBIKGallery

Porto, Portugal

www.kubikgallery.com/

Tapeçaria e cerâmica

2018

© Rita Castro

Beterraba, açaí, jatoba, feijão, carvão.

 

Privilegiando o uso deliberado de pigmentos naturais e aptidões técnicas que remetem para a artesania, a exposição Hopes and Fears de Flávia Vieira constitui-se na contramão da visualidade contemporânea, estridente e caótica. Um silêncio táctil, uma intensidade difusa, uma repetição cromática quase “monótona”, impregnam tanto os objetos quanto a nossa percepção. É esse o gesto fundamental de Flávia Vieira nesta “cena”, e é essa a constância que podemos esperar do seu trabalho, desde as primeiras exposições que realizou em Lisboa em 2010.

Um aspeto essencial desta exposição é o estatuto dos objetos aqui apresentados. “Artefactos” seria uma palavra apropriada para estes – tapeçarias, peças modeladas, pequenas esculturas –, já que combina a ideia do objeto final com os processos da sua criação, apontando também para as fronteiras que se estabelecem entre o artístico e o artesanato, o erudito e o popular, a máquina e a mão.

Embora possam ter sido planeados na mente, numa espécie de meia-luz conceptual, a verdadeira vibração destes objetos surge no trabalho final. O que Flávia Vieira procura criar não é uma "avalanche" de cor, mas uma organização e construção que é sensível em manter o delicado frescor da cor. E a cor, sabemo-lo, é sobre os sentidos, um meio de compreender a essência das coisas, as pequenas mãos do mundo, como diria Eugénio de Andrade.

Os trabalhos aqui reunidos, realizados com uma intencional diversidade de meios técnicos, têm como fio condutor o uso de pigmentos naturais do Brasil, país onde a artista vive e trabalha desde 2012. Beterraba, açaí, jatoba, feijão, carvão, entre outros, são triturados e manipulados com vista à obtenção de pigmento colorido que depois é mergulhado na tintura das tecelagens, aplicado no barro cozido, ou diretamente na parede da galeria. Por isso mesmo, uma espécie de “cosmética” impregna a exposição Hopes and Fears conferindo uma identidade (uma “máscara” segundo M. Mauss), que remete para operações simbólicas e ritualísticas, sintoma de um mundo invisível em ação na materialidade.

Mas igualmente presente no seu trabalho é a pesquisa sobre o fazer institucionalizado que parte da clareza e do rigor do projeto moderno brasileiro e que se traduz na apropriação de formas e signos geométricos humanizados. Como refere a artista: “É deste confronto que é gerada uma marca de inconformidade ou de desadequação tornada produtiva: a abstração geométrica das formas puras que é tratada com superfícies rugosas e imprecisas ou a questão da abstração e da frontalidade do padrão têxtil que ganha contornos irregulares”. Ao mesmo tempo, essas formas e signos geométricos codificam nelas mesmas uma linguagem primeira destituída de história e, por isso, “ilegível” para os dias de hoje.

Finalmente, a proposta de Flávia Vieira sugere um sentido crítico sobre a formulação do sujeito histórico dos sentidos no mundo ocidental, especialmente desde os primórdios da revolução industrial até ao capitalismo avançado de hoje. Em que circunstâncias perdemos a capacidade de fazer com as mãos? Que tipo de conhecimento deixámos para trás, sob a desculpa de ser obsoleto, lento ou primitivo? parece questionar a artista. Já no fim do séc. XIX, o ensaio do artista e escritor britânico William Morris (1834-1896), que dá o título a esta exposição, reforçava este pessimismo inerente, e apontava para a necessidade de uma ética para os sentidos, como reação ao sistema capitalista que à época se anunciava.

Ameaçada a nossa capacidade de fazer com as mãos, como continuar a fazer?

Beterraba, açaí, jatoba, feijão, carvão, simples assim.

Marta Mestre

Hopes and Fears

KUBIKGallery

Oporto, Portugal

www.kubikgallery.com/

Tapestry and ceramics

2018

© Rita Castro

Beet, açaí, jatoba, bean, charcoal.

 

By favouring the deliberate use of natural pigments and technical skills that relate to artisanal work, Flávia Vieira’s exhibition Hopes and Fears is constituted in opposition to contemporary visuality, strident and chaotic. A tactile silence, a diffuse intensity, an almost “monotonous” chromatic repetition, impregnates not only the objects but also our perception. Is that fundamental gesture of Flávia Vieira in this “scene” and is that constancy that we can expect from her work since her first exhibitions presented in Lisbon, 2010.

An essential aspect of this exhibition is the status of the objects presented here. “Artefacts” would be an appropriate word for them– tapestries, modelled pieces, and small sculptures – since it combines the idea of the final object with the processes of its creation, and also highlight the boundaries that are set between the artistic and the artisanal, erudite and popular, the machine and the hand.

Although they might had been planned in the mind, in a kind of conceptual half-light, the true vibration of these objects arise on the final work. What Flávia seeks to create is not an “avalanche” of colour, but an organization and construction that is sensitive in maintaining the delicate freshness of colour. And colour, as we know it, is about the senses, a means of understanding the essence of things, the small hands of the world, as would say the Portuguese poet Eugénio de Andrade.

The works gathered here, made with an intentional diversity of technical means, have as common thread the use of natural pigments from Brazil, country where the artist lives and works since 2012. Beet, açaí, jatoba, bean, charcoal, among others, are granulated and manipulated to obtain a colourful pigment that afterwards is immersed in the dye of the weavings, applied in the baked clay or directly on the wall of the gallery. Consequently, a kind of “cosmetic” impregnates the exhibition, conferring an identity (a “mask” according to M. Mauss), that refers to symbolic and ritualistic operations, symptom of an invisible world in action on materiality.

But also present in her work is the research about the institutionalised making, which starts from the clarity and accuracy of the Brazilian modern project which is translated on the appropriation of humanized geometric forms and signs. As referred by the artist: “It’s from this confrontation that a mark of divergence or mismatch becomes productive and it´s generated: the geometrical abstraction of pure shapes which is treated with rough and imprecise surfaces or the subject of abstraction and of the textile pattern that gains irregular outlines”. At the same time, those geometrical shapes and signs codify within them a first language, devoid of history and, therefore, “illegible” for our present time.

Finally, Flávia Vieira’s exhibition suggests a critical view about the formulation of the historical subject of the senses in the western world, especially since the beginning of the industrial revolution until today’s advanced capitalism. It seems the artist is questioning, in which circumstances did we lost the ability to make with our hands? What kind of knowledge did we left behind under the excuse of being obsolete, slow or primitive? By the end of the XIX century, the essay of British writer and artist William Morris (1834-1896), that gives the title to this exhibition, emphasized this inherent pessimism and aimed for the need of an ethic for the senses, as a reaction to the capitalist system that was emerging at the time.

Threatened our ability of making with our hands, how to continue to making?

Beet, açaí, jatoba, bean, charcoal, simple as that that.

Marta Mestre

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