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Pandã
Auroras - Project Room
São Paulo, Brasil
www.auroras.art.br/

Tapeçaria e cerâmica
2019
© Ding Musa


O trabalho com a lã faz parte do cotidiano de Flávia Vieira (1983, Portugal). Para construir as tecelagens que vem produzindo há alguns anos a artista necessita de tempo, disciplina e rigor técnico. Criadas ponto-a-ponto, de maneira artesanal e manual, e muitas vezes utilizando-se de pigmentos naturais, essas obras frequentemente trazem tecidas figuras baseadas em iconografias das pinturas corporais de povos indígenas brasileiros, como os Karajá e os Asurini.
Em “Pandã”, instalação que ocupa a Sala de Projetos do auroras, Flávia discute o lugar da decoração no campo das artes visuais ao igualar hierarquias entre os materiais e ao misturar referências ditas “eruditas” e populares.
No século XX, as discussões acerca das dissonâncias e dos pontos de contato entre arte e artefato foram tema de interesse tanto da antropologia quanto das artes visuais. Parte considerável das experimentações dos movimentos de vanguarda do século XX caminharam no sentido de desfazer essas barreiras e aproximar o fazer artístico da vida cotidiana. Nessa longa trajetória, o corpo sempre esteve presente e, muito antes do advento da performance como campo, foi a moda que efetivamente conseguiu popularizar a esfera das artes visuais e trazê-la para um contexto midiático. Uma das pioneiras dessas ações foi Sonia Delaunay, cujas experimentações radicais na década de 1920 resultaram na utilização indiscriminada de padrões geométricos em vestidos, cenários e em suas pinturas, formando uma espécie de “estamparia total”.
Neste projeto, Vieira se inspira em parte do trabalho da artista ao replicar a mesma imagem nas duas tecelagens e nas cerâmicas postas à frente delas, criando uma relação de pandã. Não por acaso, cada coisa ganha seu lugar: se o processo de desenvolvimento dessas tecelagens resulta em objetos únicos e passíveis de fetichização, as cerâmicas que Flávia cria nascem de um molde facilmente replicável e em um processo muito mais simples. Dispostas no espaço, as peças tornam-se parte de um só organismo, onde importa mais o jogo entre visão e ilusão, e o deslocamento de sentido causado pela transposição desses elementos para um viés decorativo, do que o valor artístico que cada peça possa ter individualmente.
Processo, materiais e resultado se imbricam neste trabalho e, por mais que não estejam totalmente evidentes para o espectador, estão tão enredados quanto os pontos das tramas que formam esses tecidos.

 
Thierry Freitas

Pandã
Auroras - Project Room
São Paulo, Brazil
www.auroras.art.br/

Tapestry and ceramics
2019
© Ding Musa


The work with wool is part of the everyday life of Flávia Vieira (1983, Portugal). To build the weavings that she have been producing for the last years, the artist needs time, discipline and technical accuracy. Created point-to-point, artistically and manually, and often using natural pigments, these works often bring woven figures based on iconographies of the body paintings of Brazilian indigenous peoples, such as the Karajá and the Asurini.In “Pandã”, installation which occupies the Auroras’ Project Room, Flávia discusses the place of decoration in the field of visual arts by matching hierarchies between materials and mixing so-called “erudite” and popular references.
In the twentieth century, discussions about dissonances and points of contact between art and artifact were a subject of interest both in anthropology and the visual arts. A considerable part of the experiments of the avant-garde movements of the twentieth century have been aimed at undoing these barriers and bringing the artistic work closer to everyday life. In this long trajectory, the body was always present and, long before the advent of performance as a field, it was fashion design that effectively managed to popularize the sphere of visual arts and bring it to a media context. One of the pioneers of these actions was Sonia Delaunay, whose radical experiments in the 1920s resulted in the indiscriminate use of geometric patterns in dresses, sets and in her paintings, forming a kind of “total stamping.”In this project, Vieira draws on part of the artist’s work by replicating the same image in the two weavings and ceramics placed in front of them, creating a pandã relationship. Not by chance, everything takes its place: if the process of development of these weavings results in unique and fetishisable objects, the ceramics that Flávia creates are born from an easily replicable mold and from a much simpler process. Arranged in space, the pieces become part of a single organism, where the play between vision and illusion and the displacement of meaning caused by the transposition of these elements into a decorative bias are more important than the artistic value that each piece may have individually.Process, materials and result are imbedded in this work, and though they may not be wholly self-evident to the viewer, they are as entangled as the points of the plots forming these tissues.
 

Thierry Freitas

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